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Conhecendo um pouco do Espectro Autista

ENTREVISTANDO UM ASPIE

 

Convivendo com o Asperger – A história de um rapaz pouco comum

 

AutismoEncontramos-nos com Guilherme (nome fictício) em uma manhã de segunda-feira. Era um dia ensolarado. Algumas flores e pássaros enfeitavam a praça onde eu e mais uma profissional conduziríamos a entrevista. Nos primeiros minutos de conversa, ele já me impressionou. Um rapaz jovem, apenas 25 anos. Expressava-se com exímia clareza. Ao ouvir uma pergunta, parava uns instantes, como se refletisse e pensasse com cuidado em cada palavra que diria. Segue a entrevista realizada. Uma excelente fonte de informações e conhecimento.

 

Entrevistadora: Bom dia, Guilherme! Em primeiro lugar, obrigada pela participação neste projeto. Então. me fala um pouco sobre você? Estuda, trabalha? Idade?

Guilherme: Não trabalho. Aliás, trabalho, mas como autônomo. Sou técnico de informática. Nunca me especializei. O que sei sobre computadores, aprendeu sozinho. Sou um claro autodidata. Faço Filosofia, mas pretendo mudar de curso em breve. Planejo me formar em algum curso superior e ingressar no exército como oficial.

 

E: E a sua infância? Me fala um pouco sobre suas primeiras interações sociais.

G: Não tive interação social. Quando criança, me trancava no quarto e brincava com LEGO (bloquinhos coloridos de montar). Passava horas assim.

 

E:  E na escola? Ou festinhas infantis?

G: Nunca! Não tive amigos na escola. Não costumava acreditar que as pessoas pudessem mudar, então nem investia nas relações. Sofri bullying até meus 19 anos.  Inúmeras vezes os outros alunos jogavam coisas em mim. Cadernos, livros, lápis. O que tivessem. Algumas vezes até me trancaram na sala. E sobre essas festinhas infantis a que você se referiu, não me interessavam. Em nada acrescentariam na minha vida.

 

E: Então você nunca foi pra nenhuma?

G: Fui obrigado a participar de uma. Festa junina na escola. Eu devia ter uns 09, 10 anos. Existia umas fotos até um tempo atrás sobre este evento. As queimei.

 

E: Seus pais não estranhavam este seu comportamento?

G: Sim. Diferente das outras crianças de mesma idade. Fui ao psicólogo pela primeira vez aos 09 anos. Mas não fazia sentido pra mim. Ela me fazia umas perguntas idiotas e eu ficava brincando a maior parte do tempo. Não via como aquilo poderia me ajudar. Decidi então ignorá-la. E a terapia seguiu desta forma, até o seu final.

 

E: Esta foi a única vez que você foi á terapia?

G: Não. Ainda fui novamente algum tempo depois para outra psicóloga. Porém, novamente sem sucesso. Ela também não sabia lidar comigo. Cheguei a ir ao psiquiatra que me receitou dois medicamentos que eu não sabia bem para o que serviam. Um deles me deixava desperto, animado e me abria o apetite, enquanto a outra pílula me causava sonolência. Engordei bastante nessa época, chegando a pesar quase cem quilos.

 

E: Percebi que você é muito bem articulado? Você sempre foi assim?

G: Sempre li muito. Acredito que tenha alguma relação. Aprendi a ler e a escrever sozinho. Sou o único na minha família assim.

 

E: Você me relatou que não tinha amigos na escola. Como é sua vida hoje?

G: Dediquei o ano de 2006 a refletir sobre a minha existência. Li muito. Procurei muitas respostas. Nesta época estava gordo devido o uso de alguns remédios. Li sobre exercicíos que poderia fazer para recuperar a minha antiga forma fisíca. Cheguei a transparecer para alguns dos poucos amigos que eu tinha o meu interesse em mudar. Eles não acolheram de forma positiva. Decidi que tudo mudaria no ano seguinte.

 

E: Então, que mudanças foram essas?

G: Depois de ter refletido e pensado muito , já iniciei 2007 executando meus planos. Dei um fim á todas as minhas relações de amizade e comecei a fazer exercícios. Pedalava, corria e nadava. Comecei a organizar saraus. Estou satisfeito. Chego a escrever 800 poemas por ano. Inclusive, alguns deles retratam a realidade vivenciada em quem tem o espectro do Asperger.

 

E: Para finalizar, você está acabou de me falar sobre mostrar a realidade de quem tem Asperger. Mas você chegou a ser diagnosticado?

G: Não tenho interesse. Não me interessa estar preso em um laudo. Li muito sobre o assunto, acho de extrema importância a informação. E também já tive algumas conversas informais com alguns profissionais que chegaram á conclusão que tenho Asperger. Não vejo como um laudo me ajudaria.

 

E: Obrigada, Guilherme, pela sua contribuição.

G: Por nada.

 

Conversamos informalmente por alguns minutos após a entrevista. Depois nos abraçamos rapidamente em sinal de despedida. Ele tinha um compromisso logo mais, e partiu. Mas não antes sem dizer, que há algum tempo atrás, aquela atitude (o abraço) era impensável.

 

 

Assim como Guilherme, podemos ver que certos padrões de comportamento apresentados são comuns a outras crianças, que podem possuir altas habilidades em determinadas tarefas, mas não ter tanta aptidão, o que acaba as diferenciando e tendo que haver uma compreensão diferenciada para trabalhar suas habilidades e potencializar seu aprendizado e desenvolvimento para que essas pessoas tenham maior liberdade de ação pela assimilação e internalização do conhecimento. “Estas crianças frequentemente mostram uma surpreendente sensibilidade à personalidade do professor (…) E podem ser ensinados, mas professor (…) E podem ser ensinados, mas somente somente por aqueles que lhes dão verdadeira afeição e compreensão. Pessoas que mostrem delicadeza e, sim, humor. (…) A atitude emocional básica do professor professor influencia, involuntária influencia, involuntária e inconscientemente, o humor e o comportamento da criança.”  – Hans Asperger, 1944

 

A síndrome de Asperger tem este nome em homenagem ao médico Hans Asperger que trabalhou com crianças na década de 40 do século xx. em 1944 ele fez a 1ª descrição da SA,tendo sua primeira referência na literatura inglesa em 1981, mas só em 1994 este foi integrado no DSM-IV.

E O QUE É ASPERGER?

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Conceituada como uma das perturbações do espectro autista, estas perturbações são disfunções precoces e graves do neuro-desenvolvimento que persistem ao longo da vida,

 

Em pelo menos 3 áreas é possível dividir as perturbações da síndrome:

 

– Segundo a apsa (Associação Portuguesa da Síndrome de Asperger) a Síndrome de Asperger é uma perturbação neurocomportamental de base genética, pode ser definida como uma perturbação do desenvolvimento, modificando-se quando o individuo passa de lactente a criança, e de adolescente a adulto.

 

A maior incidência ocorre entre  crianças do sexo masculino 1 em cada 3 crianças asperger, 1 é rapaz.

 

Algumas das dificuldades características de um Asperger:

* dificuldades na interação social (quando criança, tem dificuldade em brincar com outras,isola-se), dificuldade em entender as regras implícitas do jogo,desinteresse em esporte,etc.

*dificuldade em expressar emoções e entender a de outros, entender expressões faciais, sarcasmos e ironias

*são vítimas preferenciais de Bullying;

*dificuldades na comunicação verbal e não-verbal, como olhar nos olhos,usar linguagem pedante e não distingue ironias, etc.

*hipersensibilidade sensorial como a luz, som,cheiros fortes, textura, alimentos diferentes

*dificuldades quanto a mudanças, prefere as rotinas

*obsessão ppr um mesmo tema ou assunto (ex. dinossauros, carros,computadores, marcas de carro)

*entre outras

 

Entre as principais qualidades:

*perfeita lealdade: amizades são pra vida inteira, quando estabelecidas;

*clareza de valores e princípios;

*discurso isento de falsidades ou conceitos politicamente corretos;

*não perde tempo com trivialidades ou superficialidades ao participar de conversas;

*dialoga sem segundas intenções ou manipulações;

*perspectivas originais na resolução de problemas;

*memória excepcional para o que os outros consideram irrelevante;

* entre outras.

 

TRATAMENTO:

Não há um tratamento único para todas as crianças com a síndrome de Asperger. A maioria dos especialistas sente que, quanto antes o tratamento for iniciado, melhor.Programas para crianças com síndrome de Asperger ensinam habilidades, seguindo uma série de passos simples e utilizando atividades altamente estruturadas. Tarefas ou pontos importantes são repetidos com o decorrer do tempo para ajudar a reforçar determinados comportamentos.131724855

Os tipos de programas podem incluir:

  • Comportamento cognitivo ou terapia falada, para ajudar a criança a gerenciar suas emoções, comportamentos repetitivos e obsessões
  • Treinamento parental, para ensinar técnicas que podem ser usadas em casa
  • Terapia física ou ocupacional, para ajudar com as habilidades motoras e problemas sensoriais
  • Treinamento das habilidades sociais, frequentemente ensinadas em grupo
  • Terapia da fala e linguagem, para ajudar com a capacidade de conversação diária

Medicamentos como inibidores seletivos de recaptação da serotonina (ISES), antipsicóticos e estimulantes podem ser utilizados para tratar de problemas como ansiedade, depressão, problemas de atenção e agressão.

Fontes:

 

Backes, Bárbara, Zanon, Regina Basso, & Bosa, Cleonice Alves. (2013). A relação entre regressão da linguagem e desenvolvimento sociocomunicativo de crianças com transtorno do espectro do autismo. CoDAS, 25(3), 268-273. Retrieved June 03, 2014, from http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2317-17822013000300013&lng=en&tlng=pt. 10.1590/S2317-17822013000300013.

Silva, Simone Cerqueira da, & Aranha, Maria Salete Fábio. (2005). Teacher and students’ interaction in classrooms with pedagogical proposal in inclusive education. Revista Brasileira de Educação Especial, 11(3), 373-394. Retrieved June 03, 2014, from http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-65382005000300005&lng=en&tlng=en. 10.1590/S1413-65382005000300005.

http://www.minhavida.com.br/saude/temas/sindrome-de-asperger#top1

http://rnci.files.wordpress.com/2010/06/sindrome-de-asperger.pdf

http://sindromedasperger.blogspot.com.br/p/o-conceito.html

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Transtornos de Ansiedade

Olá leitores e leitoras, sejam bem-vindos mais uma vez!

Hoje falaremos sobre..

 

Transtornos de Ansiedade

 

Origem evolutiva:

A teoria de Darwin acerca da evolução propõe que características mais adaptativas ao ambiente, por promoverem vantagens para o indivíduo que as tem comparado com os demais que não tem, aumentando as chances desta característica ser passada para as futuras gerações que também terão vantagens sobre os demais indivíduos.

Reações emocionais, incluindo as relacionadas a sistema de defesa também sofrem adaptações e são selecionadas. O organismo conta com mecanismos de captação de sinais que podem indicar diversas coisas, inclusive situações de perigo. Porém, estes sinais podem ser ambíguos e isso pode gerar uma interpretação errada podendo ser a de “falso positivo” e “falso negativo”.

O falso positivo tende a interpretar alguns sinais neutros como situação de perigo e agindo de forma a promover a manutenção da sobrevivência geralmente com comportamento de fuga ou esquiva.

O falso negativo tende a interpretar alguns sinais de perigo como algo neutro e por isso, ao invés de evitar o perigo ele não reage, logo, suas chances de morrer e não passar suas características para as próximas gerações é muito alto.

Por isso a prevalência de pessoas com uma exacerbação da característica de atenção à situação de perigo está entre as psicopatologias de maior incidência na população, com cerca de 30%.

 

Quando a ansiedade se torna um transtorno ansioso? O que é isso?

A ansiedade é uma emoção normal em circunstâncias de ameaça, quando temos que lidar com algo novo ou temos que vencer desafios (como apresentar um trabalho muito importante ao chefe e conseguir uma promoção). É considerada como fazendo parte da reação de sobrevivência evolutiva de “luta ou fuga”. Quando a ansiedade está presente em circunstâncias em que não é adequada ou adaptativa, trazendo prejuízos e comprometimentos para a vida do indivíduo e dependendo da intensidade e frequência em que ocorre (sendo necessária a avaliação minuciosa de um profissional) falamos de um transtorno que requer tratamento. Ocorre com maior incidência no público feminino e pode ser desencadeado pelo estresse crônico, que funciona como um caminho fértil para o desenvolvimento de diversas psicopatologias.

 

O que se sente?

Em geral, podemos considerar que os transtornos de ansiedade sejam baseados na ativação inapropriada de reações de defesa, em decorrência de uma avaliação errada de potenciais riscos. Os sintomas típicos e comuns a todos os tipos de transtornos incluem comportamento de evitação ou fuga, hipervigilância (estado exacerbado de alerta) e ativação autonômica (aumento da pressão arterial, aceleração dos batimentos cardíacos, respiração mais curta e mais rápida, mãos mais frias e tensão muscular) que preparam o corpo para lutar ou fugir. No caso dos transtornos, essas manifestações ocorrem mesmo quando não há uma ameaça ou necessidade de luta ou fuga (resposta inadequada de medo).

 

Existem vários tipos de Transtorno de ansiedade?

Sim, e cada um deles apresentam sintomas em comum.

Transtorno de ansiedade generalizada (sintomas centrais: medo, ansiedade e preocupação generalizadas, fadiga, dificuldade de concentração, problemas de sono, irritabilidade e tensão muscular). Caracteriza-se por pelo menos 6 meses de ansiedade e preocupação excessivas e persistentes.

Transtorno de Pânico (sintomas centrais: ansiedade antecipatória e preocupação relativa aos ataques de pânico. Sintomas associados: ataques de pânico inesperados e evitação fóbica ou outras comportamentos ligados ao temor dos ataques).

Transtorno de ansiedade social (sintomas centrais: ansiedade ou medo em relação ao desempenho social e preocupação com exposição social. Sintomas associados: ataques de pânico previsíveis e esperados em determinadas situações sociais e a evitação fóbica dessas situações);

Transtorno de estresse pós-traumático (Sintomas centrais: ansiedade enquanto o evento traumático está sendo revivido, preocupação em vivenciar e sentir os sintomas novamente – como aumento da ativação e respostas de sobressalto, dificuldades de sono incluindo pesadelos – e comportamentos de evitação);

Transtorno obsessivo-compulsivo (Sintomas centrais: ansiedade que desencadeia obsessões e compulsões na tentativa de reduzir a preocupação, assim como as próprias obsessões, que podem ser vistas como um tipo de preocupação. Sintomas associados: compulsões).

Qual o tratamento? O que devo fazer?

Primeiramente, procurar a avaliação psicológica de um profissional. Somente após entrevistas e uma avaliação dos sintomas, da frequência em que ocorrem, do nível de comprometimento destes sintomas na vida do indivíduo e de acordo com tempo em que vem se apresentando é que poderá ser diagnosticado (não vale somente ler na internet e concluir que possui um transtorno de ansiedade). A combinação inteligente de mecanismos psicofarmacológicos (fármacos específicos para ansiedade) com intervenções psicoterápicas, como a TCC (Terapia Cognitivo-Comportamental), tem demonstrado resultados muito promissores. A TCC, por meio de técnicas de exposição gradual auxilia ao paciente à enfrentar os estímulos indutores de medo e ansiedade, em um ambiente seguro. Também se utiliza a psicoeducação, a identificação dos pensamentos automáticos e das emoções, a identificação das crenças centrais e intermediárias e a reestruturação cognitiva.

Dentro da Psicologia, existem diferentes teorias sobre o ser humano e formas de lidar com as demandas que são trazidas ao psicólogo. Uma delas é a Teoria Cognitivo-Comportamental. Uma das bases desta abordagem é que o comportamento é regido por ideias formadas durante o processo de crescimento do indivíduo, e são denominadas crenças centrais. Estas crenças são a base do pensamento do indivíduo obtidos a partir dos fatos da vida.

As Crenças Intermediárias, são elaboradas a partir da crença central e, como esta dá sentido ao que a pessoa vê do mundo. Os Pensamentos Automáticos são o resultado da interpretação de um determinado fato ou contexto pelas crenças e tem como resultado pensamentos que dão a ideia de surgirem “automaticamente” na mente do indivíduo e este percebe este processo como um pensamento próprio, que não foi interferido por crenças ou qualquer outra coisa (BECK, 1997).

A força das crenças está na constante manutenção de confirmação. Segundo Beck (1997), as crenças geram pensamento, que produz um comportamento e uma emoção que confirma o pensamento, e assim, a crença.

Nos casos de transtorno de ansiedade, a intervenção a partir da TCC tem como objetivos básicos a identificação, junto com o paciente, das crenças distorcidas, psicoeducação (explicação para o paciente como funciona o ser humano para a teoria cognitivo-comportamental e como funciona o transtorno de ansiedade que ele apresenta) questionamentos acerca da veracidade das crenças e automonitoramento de pensamentos negativos. Além disso há a elaboração, junto com o paciente, de estratégias de enfrentamento por aproximação sucessiva de exposição aos estímulos que desencadeiam as crenças distorcidas.

Vale ressaltar que este é um exemplo de estratégia de intervenção. Cada caso é único, por isso ele precisa de estratégias diferentes, mas um ponto essencial é que o empenho do paciente no tratamento é fundamental.

 

Referências:

Abílio, V. C.; Calzavara, M. B.; Ribeiro, A. M. & Silva, R. H. (2006). Modelos animais em psicofarmacologiaIn Almeida, R. N. de. Psicofarmacologia: Fundamentos práticos, Rio de Janeiro: Nova Guanabara.

Beck, Judith S. (2007). Terapia Cognitiva: teoria e prática. Porto Alegre: Artmed.

Rangé, B. (org.) (2011) Psicoterapias cognitivo-comportamentais: um diálogo com a psiquiatria (2ª ed.), Porto Alegre: Artmed.

Stahl, S. M. (2010). Psicofarmacologia: Bases neurocientíficas e aplicações práticas (3ª ed.), Rio de Janeiro: Guanabara Koogan.

O que é um grupo?

Caros leitores, a ciência nos ajuda a compreender o que são grupos, como se dão os processos grupais e como os profissionais, como nós psicólogos, por exemplo, podemos atuar nesse contexto, sendo um facilitador desses processos visando a potencialização dos mesmos. Convidamos vocês a embarcarem conosco nessa jornada sobre esse tema que é tão próximo a nós, os grupos. Esperamos que gostem! Obrigada e boa leitura! 

Inicialmente, consideremos que o Homem é um ser que vive eminentemente em sociedade, por consequência, vivemos em relação com os nossos semelhantes, nos constituímos na relação com os outros, e as nossas relações podem ocorrer em contextos e formas variadas. Em função dessas variadas maneiras de nos relacionar, costumamos nos reunir com pessoas que buscam o mesmo objetivo, nos reunir em grupos.

Um grupo é composto por diferentes pessoas, dois ou mais indivíduos, que partilham os mesmos objetivos e necessidades, porém há interdependência entre seus membros, onde cada um desempenha um papel para que se possa atingir o seu objetivo. É comum que os integrantes adotem regras e normas que regulam o comportamento no espaço interno do grupo. Vale ressaltar que existem muitos autores que definem diferentemente o que são grupos. Para Lewin, por exemplo, é imprescindível que haja a interdependência entre os membros para que se tenha um grupo. Seus estudos com pequenos grupos se deu a partir da década de 1940 e é ele o idealizador do termo dinâmica de grupo. Moreno, na década de 1930, também é um grande precursor do estudo dos grupos. Ele criou o Psicodrama, técnica para se trabalhar com grupos que tem sido amplamente utilizado na educação, nas empresas, nos hospitais, na clínica, nas comunidades.

Ao longo da nossa vida, participamos de diversos grupos. O primeiro grupo ao qual pertencemos é o grupo familiar. Há os grupos espontâneos, com finalidades especificas e as organizações coletivas, como os grupos religiosos, os que atuam em comunidades, anônimos, de familiares de enfermos, com os próprios enfermos e sindicatos, por exemplo. Socialmente falando, os grupos são responsáveis pela definição dos nossos papéis sociais de acordo com a função que temos internamente. Para identificar se nos comportamos como membro de um grupo, devemos observar se partilhamos dos mesmos valores, objetivos e regras dele, por exemplo. De fato, participamos de um número considerável de grupos, como os do trabalho, a família, da comunidade e da política. Ao vivenciar a dinamicidade dos grupos, percebe-se que ele passa por diferentes fases no seu desenvolvimento, no seu processo histórico e o quanto ele é caracterizado por ser um espaço plural.

É importante ressaltar que não há um tipo puro, ideal, de grupo, pois eles sempre estarão se processando em uma lógica que uma etapa irá englobar aspectos de uma etapa anterior. O grupo é um todo dinâmico porque os indivíduos que o compõe e suas relações não são estáticas, mas estão em constante mudança. Segundo Lane (1984), as questões sociais consideram o sujeito um ser histórico, supondo que quando os indivíduos se agrupam é que ocorrem ações transformadoras da sociedade.

No grupo, papéis são definidos para a manutenção do mesmo, as relações de poder estão presentes e perpassam decisões cotidianas. Outro ponto a ser destacado é que o conflito é inerente ao processo grupal e dependendo da forma como este for manejado pelos membros pode ser fonte de crescimento para o grupo. O grupo é, pois, o lugar de convivência com o diferente, pois é formado por duas ou mais pessoas e esses indivíduos são diferentes, pensam diferente, porém, juntos eles podem produzir o processo grupal.

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Processos Grupais

Quando um grupo se estabelece uma série de fenômenos passa a atuar sobre as pessoas individualmente e, consequentemente, sobre o grupo. É o chamado processo grupal (Amaral, 2007). Diz respeito a dinâmica das relações, dos papéis, do funcionamento de determinado grupo (dinâmica psicossocial). Como aspectos dos processos grupais pode-se citar coesão, cooperação, liderança, padrões grupais, motivação e objetivos grupais, papéis sociais, status, entre outros.

O grupo precisa ser visto como um campo onde os trabalhadores sociais que se aventuram devem ter claro que o homem sempre é um homem alienado e o grupo é uma possibilidade de libertação (Lane, 1986, citada por Carlos, 1998), possibilidade de ser sujeito. Nesse sentido, o grupo pode constituir-se em um espaço para pensar, elaborar, trabalhar a experiência em grupo, enquanto única, refletida. No entanto, pode também ser uma maneira de fixar o indivíduo na sua posição de alienado, tendo em vista que as relações que se estabelecem podem ser meramente de reprodução das relações de dominação e de alienação.

De acordo com Carlos (1998), deve se pensar o grupo como um projeto, como um eterno vir-a-ser. Citando Sartre e Lapassade (1982) este processo é dialético, constituído pela eterna tensão entre a serialidade e a totalidade: há uma ameaça constante da dissolução do grupo e a volta à serialidade, onde cada integrante assume e firma a sua individualidade, sendo mais um na presença dos demais. Ao mesmo tempo, há uma busca constante pela totalidade, dando sentido a relação estabelecida.

A constituição do grupo em processo pode requerer a presença de um profissional – técnico em processo grupal, que possa ajuda os sujeitos a refletirem essas questões, sobre a dinâmica psicossocial do grupo, a fim de que este seja um ambiente de desenvolvimento de potencialidades.

Ainda segundo Carlos (1998), partindo da ideia de processo e da construção coletiva do projeto, não podemos pensar em um “treinamento” de grupo, no sentido de aplicação de uma série de exercícios que possam ajudar as pessoas a atingir um “ideal de grupo” pertencente ou criado pelo “profissional treinador”. O trabalho desse profissional, que bem pode ser um psicólogo, será auxiliar a que as pessoas envolvidas na experiência grupal pensem o processo que estão vivenciando. O se pensar não cada um individualmente, mas cada um participando de um mesmo barco que busca estabelecer uma rota. Talvez o porto não seja seguro, porque não existe um destino final, e quando isso acontece o grupo se dissolve e o processo acaba. Enquanto o grupo persiste é um constante navegar, um constante questionar a rota, um aprender a conviver com a insegurança e com a incerteza. Talvez seja preciso uma mudança de rota devido a avaliação do trajeto já percorrido e do que falta.

O psicólogo que trabalha com processos grupais deve ter cuidado com a postura de superioridade conferida pela relação de saber/poder. Sua posição não deve ser a de dono do saber, que interpreta o que está oculto no psiquismo. Manejar grupos é diferente do processo terapêutico tradicional e vai na linha da perspectiva de uma clínica mais ampliada. As demandas trazidas é que devem indicar o tipo de técnica a ser utilizada pelo psicólogo, que deve ter claras questões como qual o tipo de inserção do grupo na instituição? O grupo surge espontaneamente? Quais as condições que propiciam o surgimento do grupo?

O profissional que atua na esfera do processo grupal precisa identificar a intencionalidade, tanto do seu referencial teórico, técnicas, conteúdo e objetivos, bem como os dos membros do grupo, buscando conhecer seus motivos em participar do grupo, ideias, valores, personalidade e comportamentos. As técnicas desse processo também devem ser destacadas: o enquadre (regras, atitudes, contrato); ambiente agradável; identificação e manejo de resistências e formas de comunicação; os papéis e vínculos; a totalidade (http://grupoemprocesso.wordpress.com/o-processo-grupal/).

Enfim, há uma preocupação em centrar na tarefa e tornar explícitas as questões implícitas que estão dificultando a realização da tarefa pretendida, ou que a estão facilitando. Esta é uma maneira de o grupo se tornar sujeito do seu próprio processo e os integrantes da experiência terem condições de tomar decisões de forma mais lúcida.

Alunas blogueiras: Hellen Oliveira e Laíse Cabral.

 

Referências Bibliográficas:

AMARAL, V. L. do. A dinâmica dos grupos e o processo grupal. Psicologia da educação. EDUFRN, 2007, Natal/Rn.

CARLOS, S. A. O Processo Grupal. In: Strey, Marlene et al (org.) Psicologia Social Contemporânea: livro-texto. Petrópolis: Vozes, 1998. P. 199-206.

LANE, S. T. M. O processo grupal. In:____ e CODO, W. (Org.). Psicologia social – o homem em movimento. SP: Brasiliense, 1984. p. 78-98.

A Hora do jogo diagnóstica

O tema de hoje é a Hora do Jogo Diagnóstica: um recurso técnico muito interessante que o psicólogo pode utilizar com crianças em uma entrevista diagnóstica. O objetivo de tal técnica é conhecer a realidade da criança a partir do seu brincar livre e espontâneo, já que a atividade lúdica é considerada uma forma de expressão das crianças,como de conflitos, desejos, fantasias, etc. Ou seja,a compreensão do mundo infantil é bastante complexa, então são necessários recursos apropriados para que haja uma compreensão mais eficiente desse mundo. Assim, a Hora do Jogo Diagnóstica é um meio pelo qual facilita a comunicação das crianças, sobretudo porque o brincar é universal, pois está presente em todas as culturas (embora haja variações de uma cultura para outra).

Mas não confundam a hora do jogo terapêutica, com a hora do jogo diagnóstica. A primeira ocorre continuamente e surgem novos aspectos e modificações estruturais devido a intervenção do terapeuta, cuja mediação ocorre por meio da linguagem verbal. A segunda tem começo, desenvolvimento e fim em si mesma, é precedida por entrevistas realizadas com os pais, mediada pela atividade lúdica, e cada hora do jogo diagnóstica representa uma experiência singular tanto para o psicólogo, como para a criança.

Além disso, é importante dar à criança as instruções de forma breve e compreensível. Diga que ela pode utilizar o material que quiser enquanto você a observa para conhecê-la durante o tempo da seção no consultório. Nosso papel é passivo como observador, mas ativo como terapeuta. E claro, deve-se estabelecer limites quando necessário. A sala não deve ser muito pequena, nem ter muitos móveis para não limitar o espaço da criança, e se as paredes e piso forem laváveis, melhor ainda! Os brinquedos e elementos devem estar a disposição na mesa ou outro lugar acessível, sem obedecer a uma sequência de agrupamento, porque assim o pequeno paciente ordena tudo de acordo com suas próprias variáveis. Como sugestões para o acervo, temos: papel, lápis grafite e de cor, giz de cera, tesoura sem ponta, massas de modelar coloridas, borracha, cola, apontador, bola, famílias de animais domésticos e selvagens, carrinhos, aviões, bonecos(as), xícaras, ursinhos, tudo isso de boa qualidade. Só vamos evitar objetos perigosos.

Embora não exista uma padronização da análise da Hora do Jogo, citaremos indicadores, não com a intenção de esgotar as possibilidades para fins diagnósticos, mas sim de orientar e comparar os diversos materiais envolvidos no processo do diagnóstico. Um dos indicadores é a escolha dos brinquedos e brincadeiras da criança, e o uso que faz da linguagem. É importante observar qual a abordagem dos brinquedos, se é impulsiva ou de dúvida, de aproximação lenta ou rápida, se é ativa ou à espera de instruções. Quanto aos jogos, verifique se a organização destes corresponde ao estágio de desenvolvimento intelectual e idade cronológa do paciente (sugestão: seguir os critérios propostos por Piaget). Outro indicador é a personificação, ou seja, a capacidade de assumir e atribuir papéis durante as atividades lúdicas. Este elemento possibilita a elaboração de situações traumáticas, a aprendizagem dos papéis sociais,  bem como a compreensão do papel do outro e ajuste da própria conduta, o que conta muito para um bom processo de socialização e individuação. Se a criança lhe pede para assumir algum papel durante as brincadeiras, aproveite e peça-a que te explique claramente as características deste papel.

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Outros itens importantes que podem ser considerados são: motricidade (permite observar se a motricidade da criança está de acordo com o que é esperado na sua etapa de desenvolvimento); criatividade (verificar se a brincadeira da criança é criativa, em caso afirmativo, isso é visto de forma bastante positiva); capacidade simbólica (valoriza-se a capacidade de criar símbolos, mas principalmente, a dinâmica de seu significado, já que cada símbolo apresenta um sentido de acordo com o contexto no qual se expressa, embora também seja importante a relação entre o símbolo e a idade cronológica); tolerância à frustração (é identificada quando a criança aceita as instrução que lhes são colocadas, como alguns limites e término da tarefa, bem como enfrenta as dificuldades inerentes à atividade lúdica que se propôs a realizar, de modo que esse aspecto é importante para fins não só de diagnóstico, mas também de prognóstico); adequação à realidade (é importante avaliar se a criança consegue adequar-se à realidade, por exemplo, se adapta a sua motricidade ao espaço geográfico da sala para não quebrar nada ou machucar a si próprio ou ao psicólogo, pois isso é um indicador de prognóstico, embora seja aceitável que a criança não adeque-se à realidade nos contatos iniciais com o psicólogo e necessite de um tempo para a sua adaptação).

Por fim, esperamos que vocês tenham gostado do tema de hoje e caso se interesses em utilizar esse recurso em sua atividade profissional, é importante que busques uma melhor capacitação, uma vez que esse trabalho é sério e deve estar bem fundamentado para uma intervenção adequada e eficaz. Com isso nos despedimos por aqui e até mais!

 

Bruna C. e Elis C.

Referências:

 

ARAUJO, M. de F. Estratégias de diagnóstico e avaliação psicológica.Psicologia: teoria e prática. São Paulo, v. 9, n. 2, dez. 2007. Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-36872007000200008&lng=pt&nrm=iso&gt;. Acesso em maio de 2014.

 

EFRON, A. M. FAINBERG, E. KLEINER, Y. SIGAL, A. M. WOCOSBOINIK, P. A Hora do jogo diagnóstica. In: ARZENO, M. E. G. OCAMPO, M. L. S. PICCOLO, E. G. de. O processo psicodiagnóstico e as técnicas projetivas. 11ª ed. São Paulo:WMF Martíns Fontes, 2009. p. 207 – 237.

 

Intervenção em Álcool e Outras Drogas

A drogadição é algo cada vez mais alarmante em nosso cotidiano. Todos conhecemos alguém próximo de nós ou algum familiar que faz/fez uso abusivo de álcool e outras drogas; que teve sua vida desmoronada, perdeu emprego, família, e valores sociais por tal marca de seu uso ou até mesmo pelo estigma que o uso traz consigo.

Nos aponta a Política do Ministério da Saúde para a Atenção Integral à usuários de álcool e outras drogas que:

“Se nas práticas de saúde nosso compromisso ético é o da defesa da vida, temos de nos colocar na condição de acolhimento, em que cada vida se expressará de uma maneira singular, mas também em que cada vida é expressão da história de muitas vidas, de um coletivo. Não podemos nos afastar deste intrincado ponto onde as vidas, em seu processo de expansão, muitas vezes sucumbem ao aprisionamento, perdem-se de seu movimento de abertura e precisam, para desviar do rumo muitas vezes visto como inexorável no uso de drogas, de novos agenciamentos e outras construções.” (…).

Fala-se então numa política e, ousamos nomear, numa atitude coletiva de redução de danos que ultrapassa a política. Segue a cartilha:

“A abstinência não pode ser, então, o único objetivo a ser alcançado. Aliás, quando se trata de cuidar de vidas humanas, temos de, necessariamente, lidar com as singularidades, com as diferentes possibilidades e escolhas que são feitas. As práticas de saúde, em qualquer nível de ocorrência, devem levar em conta esta diversidade. Devem acolher, sem julgamento, o que em cada situação, com cada usuário, é possível, o que é necessário, o que está sendo demandado, o que pode ser ofertado, o que deve ser feito, sempre estimulando a sua participação e o seu engajamento.” P. 10

Apesar de haver uma vasta discussão sobre tal conceito e uso dessa política e de experiências em outros estados a respeito da redução, uma vez que esta também está ligada a uma discussão indireta sobre a legalização das drogas, sabe-se que na  prática e longe de puritanismos, ela se faz necessária. Apolitizando a questão, se é que isto é possível, trata-se de reduzir danos, e não de extinguí-los. Vemos necessária esta atitude nos profissionais de cuidado envolvidos, quando não é possível a busca pela abstinência, que seria a maneira de se diminuir o máximo os prejuízos à saúde do indivíduo causados pelas substâncias.

Quando o uso abusivo e as consequências já são reconhecidas pelos próprios usuários, a abstinência em geral é a primeira busca dos mesmos, mas, como os efeitos químicos são traiçoeiros, nem sempre isso é possível e, assim, por parte dos profissionais, a redução de danos deve ser um caminho possível no horizonte de cuidados. Também em alguns casos, a redução de danos se torna um cuidado paliativo. Alguns têm sua história de vida inteiramente marcada pelo consumo de substâncias psicoativas, não pretendendo larga-lo, pois seria largar parte de si. Cabe a nós, enquanto profissionais, buscar possibilidades de cuidados para este indivíduo dentro do seu projeto de vida, como deve ser com todos dentro de uma perspectiva integral, porém se torna exorbitante quando casos mexem no componente ético de cada um e de um societário maior.

Apresentaremos aqui algumas possibilidades de intervenção para profissionais que trabalham com o público usuário de álcool e outras drogas. Essas sugestões não são restritas à psicologia, sendo comumente utilizadas por quaisquer profissionais de saúde com capacitação para realizá-las.

– Intervenção Breve

A Intervenção Breve é uma estratégia que vem sendo estimulada e pesquisada na Atenção Primária, geralmente aliada com algum instrumento de triagem para identificar o padrão de consumo de álcool e outras drogas. A Intervenção Breve é indicada para pessoas que apresentam um uso já com algum risco ou estão expostas a um contexto que influencie a um uso de risco. Tem um enfoque preventivo de educação e motivação, seu principal objetivo é desencadear a decisão e o comprometimento com a mudança dos pacientes, para reduzir risco de danos.

– Prevenção de Recaída

A Prevenção de Recaída, assim como a Entrevista Motivacional, têm como base a teoria Cognitivo Comportamental. O seu objetivo é tornar os pacientes capazes de prever a recaída, de modo que eles desenvolvam estratégias para evitá-la ou interrompê-la, quando acontecer. “A técnica foi desenvolvida a partir da observação de que o reinício do uso (lapso) pode ser seguido de sua interrupção, restabelecimento e continuidade de tratamento, ou pela persistência no uso da droga, constituindo-se em recaída plena” (Mathias e Cruz, 2007).

– Entrevista Motivacional

A Entrevista Motivacional é uma técnica que visa ajudar o paciente a reconhecer sua dificuldade quanto ao uso de substâncias e se prontificar para mudar a respeito disso. São estruturadas, diretivas e focais, tendo por base o modelo transteórico de Prochaska e DiClemente (1982) “desenvolvido com o intuito de compreender o mecanismo que leva à mudança de um comportamento” (Mathias e Cruz, 2007). Neste link encontra-se uma apresentação que detalha os principais componentes e características da EM.

– Projeto Terapêutico Singular

O Projeto Terapêutico Singular, PTS, é uma prática que ganhou espaço e visibilidade com a defesa dos princípios de humanização para o SUS. Pode ser elaborado para um indivíduo ou um grupo de pessoas, como uma família, sendo que a escolha por este dispositivo se dá quando os profissionais se deparam com situações mais críticas, que pedem uma articulação de condutas e propostas terapêuticas interdisciplinares e, muitas vezes, intersetoriais, envolvendo além da Rede de Saúde, a de Assistência Social: “A utilização do PTS como dispositivo de intervenção desafia a organização tradicional do processo de trabalho em saúde, pois pressupõe a necessidade de maior articulação interprofissional e a utilização das reuniões de equipe como um espaço coletivo sistemático de encontro, reflexão, discussão, compartilhamento e corresponsabilização das ações com a horizontalização dos poderes e conhecimentos” (Cartilha de Saúde Mental para Atenção Primária, pág. 56).

As etapas de elaboração do PTS encontram-se descritas em algumas cartilhas do Ministério da Saúde, como a de Clínica Ampliada e Compartilhada.

 

Referências

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. SVS/CN-DST/AIDS.

A Política do Ministério da Saúde para Atenção Integral a Usuários de Álcool e outras Drogas/Ministério da Saúde. 2.ed. rev. ampl.– Brasília:Ministério da Saúde, 2004. Disponível em: http://www.obid.senad.gov.br/portais/OBID/biblioteca/documentos/Legislacao/326983.pdf.  Acesso em: 28 de maio de 2014.

Cícero José Barbosa da Fonsêca, C. J. B de. Conhecendo a redução de danos enquanto uma proposta ética. Psicologia & Saberes, 1(1), pp. 11-36, 2012.

Conte  M. et al. Redução de danos e saúde mental na perspectiva da Atenção Básica. Boletim da Saúde. Porto Alegre, v. 18, n. 1, Jan./Jun. 2004.

Mathias, A. C. R., Cruz, M. S. Benefícios de técnicas cognitivo-comportamentais em terapia de grupo para o uso indevido de álcool e drogas. Jornal Brasileiro de Psiquiatria v. 56, n. 2, p. 140-142, 2007.

Saúde Mental / Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Atenção Básica, Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. – Brasília : Ministério da Saúde, 2013. 176 p. : il. (Cadernos de Atenção Básica, n. 34)

Souza, I. C. W., Ronzani, T. M. Álcool e Drogas na Atenção Primária: Avaliando estratégias de Capacitação. Psicologia em Estudo, Maringá, v. 17, n. 2, p. 237-246, abr./jun. 2012

POSSIBILIDADES DE INTERVENÇÃO EM ÁLCOOL E OUTRAS DROGAS

Oi pessoal! =)

O nosso assunto hoje será relacionado ao uso de álcool e outras drogas, faremos uma breve contextualização do assunto e depois uma explanação de algumas possibilidades de intervenção referentes ao campo da psicologia.

Vamos lá?

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Primeiramente, reconhecemos a precariedade e as limitações dos modelos postos em prática na saúde. Vemos também a negligência por parte das autoridades competentes em relação ao uso de álcool, sempre dando maior ênfase ao uso de drogas, como o crack, por exemplo. Essa situação, para nós apresenta-se como um contra-senso, tendo em vista a necessidade de intervenções urgentes para combater o uso exacerbado de álccol, sendo ele a terceira principal causa no mundo de adoecimento precoce e morte prematura – especialmente em pessoas com idades entre 25 e 59 anos, e a primeira causa de morte sobretudo, entre homens em idade produtiva (15 a 59 anos) principalmente pela ocorrência de acidentes, violência e doenças cardiovasculares. ( II Lentantamento Nacional de Álcool e outras drogas, 2013).

No que diz respeito ao Brasil, o álcool é responsável por mais de 10% dos problemas totais de saúde da população. E no que se refere às substâncias psicoativas de forma geral, de acordo com a Organização Mundial de Saúde, cerca de 10% das populações dos centros urbanos de todo o mundo a consomem abusivamente, independentemente da idade, sexo, nível de instrução e poder aquisitivo. No que se refere ao combate de tais substâncias lícitas e ilícitas, sabemos que existem dois posicionamentos políticos divergentes: o PROIBICIONISMO e a política de REDUÇÃO DE DANOS. O primeiro possui um caráter de repressão e proibição total, tendo como único objetivo a ser alcançado a abstinência. E o segundo, preza por intervenções orientadas para a minimização dos danos à saúde, ao social e econômico, sem que seja necessária a proibição do uso.

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É impossível pensar nessa questão do uso de álcool e outras drogas sem considerar os aspectos socias, econômicos e culturais envolvidos nessa problemática. É assim que Conte eT al. (2004) nos fala que as ações de redução de danos vem contribuir no esclarecimento sobre esse complexo problema social, flexibilizando as formas de universalizar o atendimento e produzir lugares de cidadania. Tendo em vista a complexidade de fatores que atravesam a problemática de álcool e outras drogas, é preciso para compreensão global do problema, que sejam consideradas as implicações sociais, psicológicas, econômicas e políticas, sendo essas tão evidentes. É quase que inevitável falar em substâncias psicoativas e não haver percepção distorcida da realidade do uso/consumo, assim o que vemos é a promoção e disseminação de uma cultura de combate a substâncias que são inertes por natureza, fazendo com que o indivíduo e o seu meio de convívio fiquem aparentemente relegados a um plano menos importante. Isto por vezes é confirmado pela multiplicidade de propostas e abordagens preventivas / terapêuticas consideravelmente ineficazes, por vezes reforçadoras da própria situação de uso abusivo e/ou dependência.

581443_473248206039100_486599189_n       Por isso, compreendemos que uma política de prevenção, tratamento e de educação para o uso consumo de substâncias psicoativas fundamentalmente terá que ser construída na interação de programas do Ministério da Saúde com outros Ministérios, assim como com setores da sociedade civil organizada. Trata-se aqui, de afirmar que o consumo de álcool e outras drogas é um grave problema de saúde pública, principalmente na atenção básica. Dentro de uma perspectiva de saúde pública, o planejamento de programas deve contemplar grandes parcelas da população, de uma forma que a abstinência não seja a única meta viável e possível aos usuários, tendo em vista a complexidade da problemática. Assim, de acordo com Conte eT al. (2004), a lógica da repressão, coloca a droga em evidência, o que resulta na baixa resolutividade da problemática  e resulta em danos mais sérios. Assim, trabalhar com a saúde pública, significa aceitar que o consumo ocorre, e que não necessariamente levará o sujeito à dependência, considerando seus diferentes riscos, de acordo com a política da redução de danos. – Algumas características da política de redução de danos

  •  Utilização de tecnologias relacionais centradas no acolhimento, no vínculo e na confiança
  • Minimização das conseqüências adversas criadas pelo consumo de drogas, tanto na saúde quanto na vida econômica e social dos usuários e seus familiares
  •  Intervenções singulares que podem envolver o uso protegido, a diminuição desse uso, a substituição por substâncias que causem menos problemas, e até a abstinência
  • Partir dos problemas percebidos pela própria pessoa ajudando-a a ampliar a avaliação de sua situação.

ABAAAex3cAB-0 – E o que pode ser feito? Vemos algumas possibilidades, principalmente na atenção primária, em que existe a vantagem do acesso direto a população dando oportunidade para o estabelecimento do vínculo e confiança, prezando assim, pela prevenção e promoção da saúde.

  • Atividades educativas em saúde,
  • Realização de grupos (operativos e terapêuticos)
  • Atividades de prevenção e promoção da saúde mental, que politizam a saúde de modo a lidar com os determinantes sociais do adoecimento mental,
  • Apoio Matricial

Assim, intervir significa estar atento à realidade social, econômica e cultural em que vivem os usuários. Sendo que um dos maiores desafios reside em alcançar as ações que estão para além da saúde. Mediante a complexidade do que foi exposto, fica claro que a abstinência não pode ser a única meta a ser alcançada. Assim a abordagem da redução de danos nos oferece maiores possibilidades “resolutivas”, bem como, caminhos promissores. Diferente da estratégia baseada na abstinência, a da redução de danos preza pela defesa da vida, reconhecendo a singularidade de cada usuário, trabalha com as diferentes possibilidades e escolhas que podem ser feitas. Assim, quando falamos em possibilidades e escolhas, verificamos uma maior liberdade, como, também a co-responsabilidade por parte de quem possa a vir ser tratado. timthumb

Referências

Instituto Nacional de Ciencia e Tecnologia para políticas publicas de álcool e outras drogas/INPAD. (2013). II Levantamento Nacional de álcool e drogas. Recuperado de http://inpad.org.br/wpcontent/uploads/2013/04/LENAD_ALCOOL_Resultados.pdf   Conte, M., Mayer, R. T. R., Reverbel, C., Sbruzzi, C., Menezes, C. B., Alves, G. T., Queiroz, R., & Braga, P. (2004). Redução de danos e saúde mental na perspectiva da atenção básica. Boletim da Saúde18, 59-77 Organização Mundial da Saúde/OMS. (2011)

Interconsulta

Olá, pessoal! Hoje iremos conversar sobre uma questão bastante discutida na atualidade, sobretudo ao que se refere a práticas de humanização no cuidado à saúde. Iremos conversar sobre a Interconsulta. Mas o que seria isso?inter 2

A interconsulta é um instrumento da interface entre a Psiquiatria, a Psicologia e a Medicina Geral, que surgiu na década de 80. Consiste na presença de um médico psiquiatra ou psicólogo em uma unidade ou serviço médico geral atendendo à solicitação de um médico de outra especialidade. A partir do momento em que o médico solicita a atuação do interconsultor, ocorre uma triangualação, paciente-família-equipe, enfatizando a importância de um olhar ampliado e sensível sobre o tratamento do paciente, considerando-o como um ser dotado de subjetividade no seu processo de ser e existir  e não como “o paciente do leito 234”, por exemplo. É válido mencionar, que por mais que a ideia de interconsulta nos remeta ao contexto hospitalar, ela também pode se fazer presente em outros contextos. Ademais, possui sua atuação pautada na integralidade, na interdisciplinaridade e na humanização.

A interconsulta possui como objetivos, de acordo com Schmitt & Gomes (2005):

  1.  Atuar na interface com a Medicina em geral (difundir o conhecimento psiquiátrico entre outras áreas da Medicina, auxiliar e instrumentalizar o médico não psiquiatra a reconhecer e tratar situações de natureza psiquiátrica);
  2. Auxiliar na assistência ao paciente de hospital geral, ajudando no diagnóstico e no tratamento de pacientes com comorbidade entre doença clínica e doença psiquiátrica;
  3. Colaborar na abordagem psicossocial do paciente;
  4.  Auxiliar na tarefa de ensino e pesquisa.

E a Psicologia? Como pode atuar na interconsulta?

No que se refere ao conpsicolotexto hospitalar, a Psicologia desenvolve um trabalho amplo e complexo, atentando-se aos aspectos do processo de hospitalização que possam vir a causar desconforto no sujeito, tendo em vista que esse novo cenário não é familiar para o paciente. Nesse sentido, atua englobando 3 níveis de atividades:

1. assistência psicológica a pacientes, famílias e equipe de saúde;

2. realização de pesquisas científicas;

3. promoção de conhecimentos teórico-técnicos.

A atuação em interconsultas surgiu basicamente nos hospitais universitários. Nessa perspectiva, podemos citar a prática desenvolvida na Unicamp, para exemplificar as situações em que o Psicólogo é solicitado  a colaborar com a equipe interdisciplinar:

1. Avaliar quadro mental do paciente;

2. Colaborar no diagnóstico diferencial;

3. Atender casos de tentativa de suicídio;

4. Prover apoio psicológico para a equipe ou para pacientes submetidos a procedimentos traumatizantes;

5. Inadequação do paciente ao tratamento;

6. Avaliar a possibilidade do paciente recusar procedimentos e tratamentos médicos;

7. Comunicações dollorosas, como diagnósticos ou pioras no quadro;

8. História pregressa de transtorno mental.

crianca paisagemAs crianças também podem ser contempladas pela interconsulta, já que reconhecidamente podem ser portadoras de psicopatologias infantis ou outras psicopatologias que tem seu início na infância. Além disso, o interconsultor pode atuar na psico-oncologia e lidando com outras doenças pediátricas em geral, podendo estar em contato também com a família e com os outros membros da equipe.

Geralmente, o profissional da interconsulta atua na área da saúde, no caso da infância, em emergências psiquiátricas ou consultas onde será falado sobre prognósticos, planos para cirurgia, alta hospitalar, etc. Extrapolando esse campo, o interconsultor pode estar trabalhando com casos de bullying ou de abuso e negligência.

Existem alguns modelos de interconsulta pediátrica, são eles:

1. Antecipatório: quando a interconsulta acontece antes de algum procedimento difícil para a criança, como o transplante de algum órgão, a quimioterapia, a transfusão de sangue ou a amputação de um membro, por exemplo. Nesses casos, o interconsultor deve avaliar as vulnerabilidades da criança, bem como os seus pontos fortes;

2. Procura de casos: é quando o psicólogo participa das reuniões clínicas com a equipe e atende as crianças no leito visando identificar pacientes mais vulneráveis e problemas de comunicação que podem estar ocorrendo entrre família e equipe, poe exemplo;

3. Instrução e treinamento: oferecimento de treinamento para enfermeiros e pediatras por meio de palestras e discussão de casos clínicos;

4. Resposta de emergência: quando a intervenção tem lugar em meio a uma crise;

5. Assistência contínua e cooperativa: em pacientes que exigem um cuidado mais contínuo, como os portadores de transtornos alimentares e de dores crônicas.

Diante disso, podemos ver como são vários os motivos para que a interconsulta venha a ser utilizada, como para fazer diagnóstico diferencial de sintomas somatoformes; no atendimento de sintomas psiquiátricos em meio a uma doença clínica; por motivos de reações a intervenções terapêuticas como a enxertos cutâneos ou transplante de medula, por exemplo; por causa de doenças sensíveis ao estresse ou de doenças crônicas que comprometem a autonomia e/ou causam fortes dores como o câncer; em decorrência de mal formações congênitas ou AIDS, e múltiplas internações; ou até mesmo para crianças que sofreram abuso sexual ou por outras questões relacionadas a família e à equipe cuidadora.

Enfim, foram várias informações, não é mesmo? Então gostaríamos de saber de vocês, caros leitores, suas opiniões acerca da interconsulta!  Vocês já presenciaram essa prática? O que acharam?

Vamos construindo juntos!

Obrigada pela disponibilidade!

Rastreio Cognitivo em Adultos

Diferente das condições que afetam comumente o sistema nervoso central (SNC) na idade adulta avançada, tais como o grande grupo das demências, sejam degenerativas ou não, as afecções e doenças cerebrais mais comuns à idade adulta jovem e intermediária dizem respeito ao traumatismo cranioencefálico, à esclerose múltipla, a alguns tipos de doenças  cerebrovasculares, a tumores cerebrais, entre outros. Um dos primeiros procedimentos utilizados para avaliar as consequências cognitivas e comportamentais dessas condições é o rastreio cognitivo.

Assim como nas aplicações em crianças e idosos, o propósito básico do rastreio cognitivo é indicar a probabilidade de um comprometimento neuropsicológico, inferido através da relação entre o escore do paciente e as normas de referência. Trata-se de um procedimento que prioriza a agilidade e o curto tempo de aplicação. O sucesso de um instrumento dessa natureza residirá na sua robusteza estatística, isto é, deverá apresentar alta sensibilidade e especificidade com um valor preditivo alto em uma população base com determinado comprometimento. A sensibilidade diz respeito à proporção de pessoas com o comprometimento e que são classificadas como tais pelo instrumento; especificidade se refere à proporção de pessoas que não tem o comprometimento e que são classificadas pelo teste como ausentes de comprometimento cognitivo. Contudo, para alcançar um patamar plenamente válido e confiável, o rastreio deve fazer uso de instrumentos que dispõem de uma informação qualitativa tão clara e entendível quando o escore numérico.Um ponto-chave no campo do rastreio cognitivo no Brasil é a adequação dos instrumentos disponíveis atualmente: poucos são validados em populações para as quais estão destinados a serem utilizados, outros têm baixa precisão para níveis leves de comprometimento cognitivo, e muitas vezes há vieses demográficos na distribuição de escores. Por isso, quando os clínicos fizerem uso do rastreio cognitivo, devem ter cuidado na escolha do instrumento, tendo sempre em vista se este é adequado ou não para aquilo que se pretende mapear, além de verificar a interferência de fatores tais como nível de escolaridade, deficiências físicas e sensoriais, ambiente de aplicação adequado, etc.

Existem dezenas de testes de rastreio cognitivo para menos verdeadultos usados mundialmente, porém muitos ainda não foram adaptados para o contexto brasileiro. Dos adaptados, os mais usados são o:  Mini-Exame do Estado Mental (MEEM), Avaliação Cognitiva de Montreal (MOCA), teste do desenho do relógio, fluência verbal, etc.

Para conhecer mais sobre os instrumentos verifiquem os links abaixo:

MEEM – http://www.saudedireta.com.br/docsupload/1341144719mini_exame_do_estado_mental.pdf

MOCA – http://neurologiahu.ufsc.br/files/2012/09/MoCA-Test-Portuguese_Brazil.pdf

TESTE DO RELÓGIO –

 

Bibliografia

Cullen, B.,  O’Neill, B., Evans,  J. J., Coen, R. F., & Lawlor, B. A. (2007). A review of screening tests for cognitive impairment. J Neurol Neurosurg Psychiatry, 78, 790-799.

Vitiello, A., P., P., Círiaco, J., G., M., Takahashi, D., Y., Nitrini, R., Caramelli, P. (2007). Avaliação cognitiva breve de pacientes atendidos em ambulatórios de neurologia geral. Arq. Neuro-Psiquiatr, 65, 299-303

 

 

Rastreio Cognitivo em Idosos

Continuando no tema de rasteiro cognitivo, vamos aprofundar um pouco no que diz respeitos aos idosos. Como foi falado no post anterior, o rasteiro funciona como uma técnica mais geral para saber se é necessário ou não uma avaliação neuropsicológica. No caso dos idosos enfatizamos a sua importância uma vez que são levadas em consideração as doenças degenerativas que acompanham a idade, bem como as alterações cognitivas naturais do envelhecimento. Sendo assim, é importante diferenciar o envelhecimento saudável de um quadro demencial.

A compreensão acerca dos quadros de demência se torna fundamental tendo em vista a significativa prevalência desses quadros na atualidade, sendo presente em 3% a 11% das pessoas com 65 anos ou mais, em um panorama mundial, que não se distancia da realidade brasileira. Por esta razão, faz-se essencial o conhecimento de técnicas que possam caracterizar minimamente o estado mental e/ou comportamental de idosos, no sentido de indicar a necessidade de outro tipo de intervenção avaliativa a fim de compreender os declínios que ocorrem no sujeito em questão.

Caracterizamos os quadros de demência como aqueles em que se fazem presente pelo menos declínios mnemônicos e alguma perturbação cognitiva – sejam afasia (linguagem), apraxia (atividades motoras) e/ou agnosia (reconhecimento de objetos) – ou executiva – planejamento e execução de comportamento. Esses declínios e perturbações tem natureza usualmente crônica e precisam ser identificados com intensidade suficiente para interferir no desempenho de atividades profissionais e/ou sociais.

Ao realizar um rasteiro cognitivo em idosos, deve-se levar em consideração as alterações naturais da idade, ou seja, as mudanças em relação as funções executivas (planejamento, memória operacional, flexibilidade cognitiva, entre outros). Na realização dessa atividade é necessário fazer entrevistas com o paciente, com os familiares e cuidadores, além de descobrir qual o quadro em que está envolvido. Ademais, deve-se tentar utilizar o próprio paciente como parâmetro de comparação, de seu estado mental na meia idade e na idade atual, em vez de fazer comparações com outros sujeitos de sua idade, levando em conta, desse modo, a individualidade de cada sujeito.

Nesse sentido, é necessário fazer um diagnóstico para saber se o idoso está num quadro de delirium, depressão ou demencial. Relacionando com a terceira idade, vale mencionar que existem quadros demenciais ligados a essa faixa etária (acima de 60anos) como Alzheimer e Parkinson.

Aprofundando na Doença de Alzheimer (DA) é uma síndrome com comprometimento da memória (alteração da capacidade de aprender informações novas ou de recordar informações antigas) associada a um prejuízo em pelo menos, uma das funções cognitivas (linguagem, gnosias – alteração sensorial, praxias – alteração nos movimentos intencionais ou funções executivas) e que interfere no desempenho social e/ou profissional do indivíduo e representa um declínio em relação ao nível de funcionamento anterior. É importante mencionar que é uma doença degenerativa, ou seja, gradual e progressiva. Pode ser dividida em três fases: a primeira, inicial: 2 a 3 anos, sintomas vagos difusos, instalação insidiosa, memória alterada, alterações vísuo-espaciais (desorientação), alterações da linguagem, aprendizado, concentração, crítica comprometida, perplexidade, hiperatividade, agitação, apatia, desinteresse; a segunda composta pelos seguintes critérios: 3 a 5 anos, maior deteriorização da memória, sintomas focais (afasia, apraxia, agnosia), alterações no cálculo, julgamento, planejamento e abstração, emoções, personalidade e comportamento social relativamente preservados e alterações de postura, marcha, tônus muscular e parkinsonismo; e por fim, a ultima fase (avançada): duração variável, funções mais gravemente comprometidas, sons estrando, mutismo, incontinência urinária e fecal, sintomas e sinais neurológicos grosseiros (rigidez, convulsões, tremores e movimentos involuntários), apatia e prostração acentuados, confinamento ao leito, incapacidade de expressão, posição fetal, escaras, estado vegetativa, óbito.

Para realizar o rasteiro é importante escolher testes rápidos (média: 10 minutos), que sejam aceitos pelos pacientes, com boa confiabilidade e validade concorrente. É de fundamental importância um olhar clinico durante todo esse processo. Alguns instrumentos que podem auxiliar nesse processo são: o Mini-exame do Estado Mental (MEEM), Avaliação funcional – Questionário de Pfeffer, Teste de memória de figuras e o Teste de fluência verbal (animais).

Por fim, gostaríamos de sugerir alguns filmes que mostram o processo de envelhecimento, tanto saudável como degenerativo. O primeiro seria Diário de uma Paixão cuja história acontece numa clínica geriátrica, Duke, um dos internos que relativamente está bem, lê para uma interna (com um quadro mais grave) a história de Allie Hamilton (Rachel McAdams) e Noah Calhoun (Ryan Gosling), dois jovens enamorados que em 1940 se conheceram num parque de diversões. Já o segundo filme seria Amor, Georges (Jean-Louis Trintignant) e Anne (Emmanuelle Riva) são um casal de aposentados, que costumava dar aulas de música. Eles têm uma filha musicista que vive com a família em um país estrangeiro. Certo dia, Anne sofre um derrame e fica com um lado do corpo paralisado. O casal de idosos passa por graves obstáculos, que colocarão o seu amor em teste.

 

 

Referências:

Aprahamian, I., Martinelli, J.E., Rasslan, Z., Yassuda, M.S. Rastreio Cognitivo em Idosos para o Clínico. Rev Bras Clin Med, v.6, p.254-259, 2008.

Reis, L.A., Torres, G.V., Araújo, C.C., Reis, L.A., Novaes, L.K.N. Rastreamento Cognitivo De Idosos Institucionalizados No Município De Jequié-Ba. Psicologia em Estudo, Maringá, v. 14, n. 2, p. 295-301, abr./jun. 2009.

 

Caminhando pelas ruas…

 “Caminhante, não há caminho, o caminho se faz ao caminhar.” (Antonio Machado)

Olá, estamos aqui para apresentar a vocês a prática do Acompanhamento Terapêutico, ou seja,  suas características, como se deu historicamente, enfim seus aspectos mais relevantes.

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A prática do Acompanhamento Terapêutico é baseada nas diretrizes da Reforma Psiquiátrica, e tem como objetivo promover a reinserção social dos sujeitos em sofrimento mental em sua comunidade, tendo como apoio os familiares, amigos, serviços de cuidado como o CAPS, Residências Terapêuticas, ou seja, as redes de apoio em geral. Nesse sentido, segundo Bezerra (2009) busca criar possibilidades reais de vida aos portadores de transtornos mentais, apostando no seu seu potencial criativo de se colocar no mundo. Além disso, busca reinserir o usuário na sociedade, resguardando sua presença no meio social e familiar, configurando-se uma prática cujo espaço clínico está nas ruas, tanto nas adjacências dos serviços de saúde quanto nos diferentes espaços sociais por onde o sujeito circular, ou seja, não apenas restrito à instituição” (Bezerra & Dimenstein, 2009).

Sabemos que no século XVII surgiram os primeiros asilos, visando o isolamento de “loucos” (pobres, negros, indigentes, etc.) constituindo-se verdadeiros depósitos humanos. Sendo que, no Brasil,  em 1852, surge no Rio de janeiro o 1º hospício, o qual é denominado D. Pedro II, tendo como objetivo a higienização. Mais adiante, em fins do século XVIII, o médico Philippe Pinel confere à loucura o status de doença, tornando-se especialidade da psiquiatria. Além disso, inaugaura-se uma tradição terapêutica caracterizada pelo tratamento moral, corretivo e educador, bem como pelo isolamento através da hospitalização, sendo que, a ideia de alienação mental produziu medo e, consequentemente,  a segregação dos considerados perigosos.

Após a  2ª Guerra Mundial, houve algumas críticas ao modelo manicomial, corroborando com a desconstrução do modelo hospitalocêntrico , sendo que este passou a ser visto como ineficaz, segregador, dando espaço para a desinstitucionalização, ou seja, para o surgimento de novas práticas  de cuidado e, por conseguinte, novas formas de produção da realidade. No Brasil, por volta da década de  70 e 80, o Movimento do Trabalhadores em Saúde Mental, desenvolvem fortes críticas ao saber psiquiátrico,  dando respaldo à Reforma psiquiátrica, ou seja, o movimento social que visa uma nova realidade para a loucura e a psiquiatria. Surgem daí novas práticas de cuidado em saúde mental como, por exemplo, o CAPS e Serviços Residenciais Terapêuticos, na tentativa de reduzir os leitos em hospitais psiquiátricos e diminuir o tempo de internação, criação de Unidades Psiquiátricas em Hospitais Gerais, bem como Centros de Convivência e a inclusão da Saúde Mental na Atenção Primária.

Como resultado das lutas pela mudança na sociedade, destaca-se a Lei 10.216/2001 como uma das maiores conquistas da luta antimanicomial, a qual foi iniciada no Brasil nos anos de 1970, sendo que, a mesma defende os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais, ou seja, a não internação prolongada e a redução das internações compulsórias, visando uma maior integração do paciente com sua família e com a sociedade, exigindo desta, portanto, responsabilidade e aceitação do portador de transtorno mental enquanto ser humano com seus direitos de cidadão (Bezerra & Dimenstein, 2009).

 

Abaixo há a exposição de dois casos referentes a questões específicas do lidar com o sujeito em condição de sofrimento, sendo que, cada grupo propõe uma estratégia para lidar com esta situação.

 

Questão 1: O caso de Maria: Uma paciente surda, muda e cega que foi abandonada numa casa de recuperação, se encontra isolada dentro desse espaço físico e não usa de nenhuma forma de comunicação tradicional (audição, visão e fala) e sem nenhum diagnóstico definido.Como proceder?

Propostas do grupo (Wigna, Pâmela e Jeane)

  • Resgate da história de vida, percurso dessa pessoa, história clínica (Fazendo contato com a família);
  • Investigar qual forma de comunicação que essa pessoa utiliza, tentando estabelecer comunicação e vínculo;
  • Investigar a agressividade e comportamentos típicos;
  • Promover atividades que privilegiem o sentido tátil, como contato com animais, arte-terapia com esculturas (argila, etc);
  • Se fosse passear, propor lugares mais abertos que propiciassem experiências táteis e olfativas agradáveis, bem como praias, parques, etc;
  • Se ela não souber libras, buscar uma forma que ela aprendesse e se integrasse melhor na comunidade surda.

Propostas do grupo: (Maria Emanuela, Marjara Ferraz)

  • Primeiro passo: procurar saber o diagnóstico;
  • Como ela chegou na instituição;
  • Investigar a história clínica e social dela;
  • observar fora do ambiente de isolamento, buscando estratégias para comunicação/interação;
  • Propor atividades que estimulem a autonomia;
  • Propor atividades de reinserção grupal.

Propostas do grupo: (Bruna Cardoso, Elis Targino e Hellen Mendes)

  • Observar o contexto;
  • Conhecer a história clínica (Se ela está internada há anos por causa de algum transtorno ou porque a família a abandonou, procurar saber se há um diagnóstico psiquiátrico);
  • Conversar com a equipe e a família;
  • Falar com a assistente social (Investigar a lei que protege ela para ter um profissional  da área de educação especial que esteja a auxiliando);
  • Tentar de alguma maneira se aproximar dessa paciente e se comunicar com ela pelo toque;
  • Tentar descobrir o que seus comportamentos agressivos querem dizer;
  • Observar a paciente, como ela se comporta;
  • Procurar saber suas habilidades e potencialidades e investir nisso;
  • Ver se Maria participa de algum acompanhamento individual ou em grupo com um profissional de T.O. Se não estimulá-la a fazer isso;
  • Procurar saber sobre sua cegueira e surdez. Como ela se deu? Se são irreversíveis? Se fez tratamento? Se tem tratamento? Há alguma autonomia?Se locomove sozinha? O que ela faz sozinha?

Questão 02: João um homem que passou muitos anos longe de casa, usuário de crack, com histórico de violência contra a mãe, a situação problema consiste em ele estar dentro do carro com a mãe e o acompanhante terapêutico, dentro do carro acontece uma forte discussão e a mãe (que dirige o carro) não consegue mais ficar atenta ao trânsito dada a briga que intensa dentro do veículo, situação de risco eminente para todos os integrantes dentro do carro. O que fazer?

Propostas do grupo: Não identificado

  • Sugerir a mãe que pare o carro, estacionando em algum lugar para continuar a discussão em um lugar seguro;
  • Mediar a discussão;
  • Pedir para dirigir.

Propostas do grupo: (Wilson, Amanda e Emanuela)

  • Parar o carro;
  • Promover o diálogo/resolução do conflito;
  • Acompanhante/acompanhado saem do carro;
  • Evitar algo mais grave;
  • Acionar o CAPS.

Propostas do grupo: (Sharline, Brenda, Josiane e Jaqueline)

  • Pedir que a mãe pare o carro;
  • Mostrar os riscos decorrentes de uma discussão naquela situação (trãnsito e muitos carros na rua), podendo ocasionar um grave acidente/ risco à vida de todos)
  • Partindo do pressuposto de que eles estariam abalados emocionalmente, o acompanhante pediria para assumir a direção do carro e os levaria para casa;
  • Medir o conflito (o que ocasionou a discussão), podendo sugerir um tratamento em CAPS ad, por exemplo.

Propostas do grupo: (Camila, Beatriz, Laíse e Jéssica)

  • Parar o carro;
  • Mediar diálogo entre os dois;
  • Futuramente, buscar entender a dinâmica familiar e
  • Rever a questão da moradia.

 

 

Esperamos que tenham gostado, até a próxima postagem!